Medicina Kitsch

Texto traduzido da publicação do perfil no Instagram: Healing from Healing (@healingfromhealing)

Medicina kitsch é a degradação e a devolução das artes curativas a um ato performático de imitação desprovido de substância. Uma forma insidiosa de sinalização de virtude e autopromoção, que se associa a expressões populares e socialmente aceitas do kitsch — frequentemente derivadas da exploração da arte indígena, de tradições mágicas e medicinais marginalizadas, ou ainda da diluição e comercialização da espiritualidade exótica.

Kitsch é um termo originalmente usado no mundo da arte para descrever qualquer coisa que funcione como um substituto barato e sentimental para algo de verdadeiro valor. Inicialmente, era aplicado às imitações vulgares de grandes pinturas românticas, vendidas à burguesia ascendente do século XIX, mas hoje se refere a qualquer coisa brega, superficial ou insossa. No contexto contemporâneo, a medicina kitsch, como simulacro vazio do ritual medicinal, tornou-se prática performática padrão e método preferido de sinalização social nos chamados “círculos da medicina”.

Exemplos de kitsch na medicina incluem (mas não se limitam a): trajes cerimoniais, adereços e “bling medicinal” utilizados por "curandeiros" ou "xamãs" com compreensão superficial das culturas que exploram; penas, cristais ou ovos usados para “limpezas energéticas”; o canto performático de mantras védicos ou icaros shipibo; a queima de plantas raras e ameaçadas, como palo santo, olíbano, sândalo ou sálvia branca; o uso teatral de maracás e outros artefatos culturais por parte de quem deseja transmitir uma falsa autoridade espiritual.

Dentro dos limites de uma cultura de cura hiper-medicalizada e moldada pelo consumismo, toda medicina kitsch está fadada a se tornar mercadoria ao final da cerimônia — quando os clientes saem pela loja de presentes.

Medicina kitsch é o produto da priorização da vaidade e da curadoria da imagem em detrimento da qualidade, e da vitória da estética sobre a integridade.

“Não sei como me sinto ao comprar uma peça de arte indígena. Embora eu entenda que isso possa ajudar uma família em situação econômica difícil — e que esse dinheiro será bem-vindo — há algo fundamentalmente perturbador e colonial na maneira como transformamos tradições mágico-medicinais, culturais e artísticas, ricas e complexas, em produtos de consumo. No fim, tudo vira medicina kitsch.

Existem formas menos performáticas e egoístas de apoiar pessoas que enfrentam a pobreza estrutural, o epistemicídio, a devastação ecológica e o deslocamento forçado.”

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